A História do Vazio

Era uma vez uma bela jovem, não tão jovem a ponto de acreditar em promessas, mas não tão experiente a ponto de perder totalmente a fé. Não tão bela a ponto de pôr qualquer homem a seus pés, mas bela o suficiente para tirar o fôlego e as palavras de muitos deles. Seu nome e seu rosto? O tempo tratou de apagá-los. Assim como os de várias outras belas jovens, que passaram por essa terra.

Essa bela jovem, cujo nome se esqueceu, era só nesse mundo. Ela não tinha pai nem mãe, nem irmãos, nem ninguém que lhe fosse familiar. Diz-se que ela mesma esqueceu do próprio nome, por não ter quem a chamasse.

Um certo dia, um belo dia de sol, um rapaz lhe chamou a atenção. Andava só e batia nas árvores e nos arbustos violentamente, como se desejasse ferí-los. Ela não pensou duas vezes, traçou uma linha reta até ele e o deteve. Ela nunca teve ninguém no mundo além daquelas árvores e arbustos, nunca teve nada além daquela terra, que não a pertencia, mas a acolheu.

O rapaz então se desculpou. E explicou que havia brigado com o pai, e esse o havia expulsado de casa. Enquanto o rapaz contava sua história, ela ouvia e, mesmo sem prestar atenção, ela começou a se lembrar de uma manhã bonita de sol, exatamente como aquela.

Ela se lembrava de estar magoada, de estar com raiva, tanta raiva que nada parecia ter sentido, tanta raiva que não conseguia ver nem por onde passava. E com essa raiva ela começou a correr.

Ela correu sem parar e cada vez mais rápido. Correria, pensou, até a raiva passar. Então ela correu, correu até não poder mais. Correu até acabar o fôlego . Correu até que a pernas cederam. Correu até não sobrar mais nada. Então parou.

Ela parou, e quando olhou em volta, não havia mais nada. O silêncio perfurava seus ouvidos, a escuridão fazia arder seus olhos, o frio congelava seu coração e o medo lhe invadia a alma, junto com ele um único pensamento: Havia corrido longe demais.

Havia corrido longe demais, e de repente tudo que lhe era valioso e todos os que ela amava haviam ficado para trás. Não sabia voltar. Não podia seguir sabendo que tudo o que lhe importava na vida, havia ficado. Então sentou e esperou.

Esperou que alguém viesse, esperou que lhe alcançassem. Esperou, esperou, esperou mais… E quando sentiu que não podia mais suportar, esperou mais um pouco. Até que de repente não pôde esperar mais. Se levantou, olhou pelo caminho que antes havia tomado, era inútil, não sabia voltar.

Não sabia voltar…Então fez a única coisa que podia: Seguiu em frente. Mais uma vez se pôs a correr, agora movida unicamente pelo desespero causado pela escuridão e pelo silêncio. Ela correu, correu, correu, correu sem parar, e cada vez mais rápido. Até que uma luz a cegou, e um calor a invadiu. Então ela parou.

Ela parou. Esperou os olhos se acostumarem à luz. Respirou o perfume das ávores, e, sem nem perceber, sorriu como se estivesse respirando pela primeira vez. Quando conseguiu voltar a ver com clareza, soube que nunca poderia voltar. Não sabia voltar. Nem ao menos lembrava por que havia partido. Nem ao menos lembrava o próprio nome, ou o de mais ninguém. Via o próprio reflexo nas águas, e não se reconhecia. A única coisa da qual se recordava era a eternidade que havia se passado enquanto ela esperava sentada, que alguém a encontrasse.

Ao contar ao rapaz sua história, riu ao ver o quanto ele havia ficado impressionado. E quando ele lhe perguntou como ela podia ser feliz sem saber quem era, ela sorriu, e disse apenas:

- A pessoa que eu era me levou até aquele vazio. A pessoa que sou hoje, me tirou de lá, e me trouxe até aqui. Não posso voltar a ser aquela pessoa, por pura curiosidade. Porque se o fizesse, teria de começar tudo de novo. E com certeza eu o faria.
O rapaz concordou, deu meia volta e voltou para casa.

Ela nunca mais o viu depois daquele dia, e encarou isso como o melhor de todos os sinais.

Camila de A. Sortica

~ por crazynation em Julho 23, 2008.

Uma resposta to “A História do Vazio”

  1. Interessante essa história. Deixo em aberto a seguinte questão: Que ligação a sem nome tem com a Jo? Lembro de toda a descrição do texto… o que me deixou muito intrigada. Acho que vou sonhar essa noite :P .

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